História da pesquisa em Materiais no Brasil: 40 anos do primeiro laboratório de pesquisa em vidros do Brasil.


box-lamavO primeiro laboratório do Brasil dedicado ao estudo dos materiais vítreos completa 40 anos neste mês de dezembro de 2016. Esse laboratório, que iniciou suas atividades com apenas um forninho tipo mufla de até 1.100 °C, hoje possui 18 fornos, 4 dois quais chegam aos 1.750 °C, e mais três dezenas de equipamentos de fabricação e caracterização de vidros distribuídos em 500 m2. O aniversariante em questão é o LaMaV (Laboratório de Materiais Vítreos), do DEMa (Departamento de Engenharia de Materiais) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

No 40º aniversário do LaMaV, a equipe se manifesta plenamente satisfeita com suas realizações [veja box ao lado]. O trabalho pioneiro do laboratório foi essencial na geração, disseminação e aplicação no país do conhecimento científico sobre vidros, tanto no meio acadêmico quanto na indústria. “Formamos aproximadamente uma centena de mestres, doutores e pós-docs, que hoje trabalham como professores e pesquisadores em instituições importantes como a USP, UFSCar, ITA, UEPG, UEMa, UFBa, PUC, IPT, CEFET, UFF, UNESP, UFLavras, UFABC, CTA, UNIOESTE e outras no Brasil e exterior, e em inúmeras empresas. Este é um legado importantíssimo! ”, destaca Edgar Dutra Zanotto, um dos fundadores da SBPMat e da revista Materials Research, que fundou o LaMaV e o lidera até o presente.

Mas os esforços e resultados do LaMaV vão além das fronteiras nacionais e se caracterizam por sua internacionalidade. O laboratório já recebeu estudantes e professores visitantes de dezenas de países. Sua equipe trouxe ao Brasil os mais importantes congressos internacionais sobre vidros, participa dos conselhos editoriais de quase todas as principais revistas científicas especializadas em materiais vítreos e recebeu 7 dos mais prestigiosos prêmios e honrarias internacionais da área – além de mais de 20 prêmios nacionais, incluindo o prêmio Almirante Álvaro Alberto*. As pesquisas do grupo, principalmente aquelas sobre nucleação e cristalização de vidros e vitrocerâmicas, são mundialmente reconhecidas. “Significativa fração dos pesquisadores ativos desta área já ouviu falar, assistiu uma palestra ou leu um artigo ou patente resultante das nossas pesquisas. Certamente colocamos a cidade de São Carlos e o Brasil no mapa mundial da pesquisa em vidros! ”, diz Zanotto.

Atualmente, o LaMaV atua intensamente nos temas de cristalização de vidros, processos de relaxação estrutural e de tensões residuais, vitrocerâmicas, biomateriais, além de propriedades mecânicas, reológicas, elétricas e bioquímicas dos materiais vítreos. “Hoje temos um ótimo laboratório e um excelente financiamento, principalmente da FAPESP, mas também da Capes, CNPq e algumas empresas. Entretanto, a enorme burocracia das agências de fomento relativa à aquisição de materiais e equipamentos e na prestação de contas, as incertezas relativas ao futuro das universidades (por exemplo, PEC 55 e outras), aliadas à escassez de secretárias, técnicos e engenheiros (lab managers) que auxiliem na organização e manutenção dos laboratórios, sempre foram e continuam sendo empecilhos formidáveis”, pondera Zanotto.

A história

Tudo começou em 15 de dezembro de 1976, quando Zanotto foi contratado como professor auxiliar pelo DEMa-UFSCar com o intuito principal de iniciar o trabalho de pesquisa sobre vidros no departamento.  Em 1970, tinha sido lançado o primeiro curso do Brasil (e da América Latina) de graduação em Engenharia de Materiais e, dois anos depois, o DEMa tinha sido criado. Em 1976, o departamento já contava com grupos de pesquisa em metais, polímeros e cerâmicas, mas ninguém trabalhava ainda com vidros, lembra Zanotto, atualmente professor titular do DEMa-UFSCar. “A criação do LaMaV foi uma consequência natural do estabelecimento do curso de graduação em Engenharia de Materiais na UFSCar”, diz o professor.

Nesse fim de 1976, Edgar Zanotto era um engenheiro de materiais recém-formado (pela própria UFSCar), que acabara de concluir um trabalho de iniciação científica sob a orientação do professor visitante Osgood James Whittemore, da Universidade de Washington (EUA), pesquisador da área de materiais cerâmicos. “Minha pesquisa de IC, realizada naquele ano, focalizou a durabilidade química (lixiviação) de vidros candidatos ao encapsulamento de resíduos radioativos”, relata Zanotto. “E, pasme, este assunto ainda é “quente”! ”, completa.

Assim que foi contratado, Zanotto criou o LaMaV. Os primeiros experimentos, realizados pelo próprio Zanotto, consistiam em fundir vidros de baixo ponto de fusão, usando o forno tipo mufla e um cadinho (recipiente que pode ser usado em altas temperaturas) de platina, emprestado do laboratório de análises químicas da universidade.

Em 1977, o fundador do LaMaV iniciou o mestrado em Física no Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC) da USP, sob a orientação do professor Aldo Craievich, que era, provavelmente, o único cientista atuante na área de vidros antes de 1976. De fato, ele é o autor dos dois primeiros artigos científicos sobre vidros assinados por pesquisadores de instituições brasileiras, ambos publicados em 1975. Durante o mestrado, Zanotto produzia vidros e os tratava termicamente (para gerar cristalização) no LaMaV, fazia averiguação por microscopia no laboratório de metalurgia do DEMa, e caracterizava os vidros por DRX e SAXS no IFQSC da USP. Em um ano e meio de mestrado, Zanotto terminou seu trabalho de pesquisa e defendeu a dissertação. No mesmo ano, ele iniciou o doutorado, também na área de vidros, na Universidade de Sheffield (Reino Unido), com orientação do famoso professor Peter James. Em 1982, Zanotto voltava ao LaMaV com doutorado defendido.

“Nos 10-15 anos iniciais, o trabalho isolado, a inexperiência e as incertezas e dificuldades associadas ao financiamento inconstante das pesquisas, mais o reduzido espaço físico e pouca infra laboratorial atrapalharam as nossas atividades”, relata Zanotto. Cerca de uma década depois da criação do laboratório, foi contratado o segundo professor do grupo, Oscar Peitl Filho, ex-orientado de mestrado e doutorado de Zanotto. Alguns anos depois, Ana Candida Martins Rodrigues se tornou a terceira professora da equipe do LaMaV. Finalmente, em 2013, Marcello Andreeta foi contratado. “Hoje somos 4 professores, 1 técnico, 1 assistente administrativa e cerca de 30 alunos de pesquisa e post-docs, 7 de outros países”, diz Zanotto.

O ano de 2013 foi um marco na história do LaMaV, devido à aprovação e início de atividades do CeRTEV (Center for Research, Technology and Education in Vitreous Materials), um CEPID da FAPESP. Dirigido por Zanotto, o CeRTEV reúne o LaMaV (sede do centro) e outros laboratórios da UFSCar, USP e UNESP, para realizar pesquisa, desenvolvimento e atividades de educação na área de materiais vítreos, contando com financiamento da FAPESP até 2024. “Com o CeRTEV, estabelecemos um dos maiores grupos de pesquisa acadêmicos deste planeta sobre vidros, com infraestrutura de nível internacional, 14 professores e cerca de 60 alunos de pesquisa! “, comemora Zanotto.

“Apenas divagando, se eu pudesse retornar a dezembro de 1976, com a experiência acumulada nesses 40 anos, acho que faria tudo novamente, mas mais eficientemente! ”, expressa o fundador do LaMaV.

Estudantes de doutorado de 28 países participam da "Glass and glass-ceramics school" no LaMaV em agosto de 2015.
Estudantes de doutorado de 28 países participam da “Glass and glass-ceramics school” no LaMaV em agosto de 2015.

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*Veja também nossa entrevista com o professor Edgar Dutra Zanotto, realizada em abril de 2013, na ocasião do Prêmio Almirante Álvaro Alberto, aqui.

20º aniversário da criação do Instituto de Física de São Carlos, e seis décadas participando da história da pesquisa em Materiais no Brasil.


O ano de 2014 é de comemorações para uma das instituições protagonistas da história da pesquisa em Materiais no Brasil. O Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da Universidade de São Paulo (USP), celebra seu 20º aniversário.

Entretanto, as origens do IFSC e de suas contribuições à Ciência e Engenharia de Materiais brasileira remontam a uns 60 anos atrás. “Desde a sua origem o IFSC teve um papel central no desenvolvimento da Ciência e Engenharia de Materiais, uma vez que a pesquisa em materiais esteve presente com os pioneiros do IFSC”, afirma o professor Antonio Carlos Hernandes, diretor do IFSC de 2010 a 2014 e pesquisador na área de Materiais.

O início da história pode ser fixado em 1953, quando a USP, que tinha sido fundada em 1934, inaugurou uma unidade de ensino e pesquisa na então pacata cidade de São Carlos, no interior do estado de São Paulo. Tratava-se da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), que existe até a atualidade. Na época, o diretor da escola, Theodoreto Souto, incumbido de formar a equipe de docentes-pesquisadores, levou até São Carlos professores recrutados, principalmente, na USP de São Paulo, no Rio de Janeiro e no exterior do país, mas não conseguiu que eles se assentassem na cidade por muito tempo.

Sergio Mascarenhas chegou a São Carlos em 1956 e protagonizou a história da pesquisa em Materiais na região. Crédito: SBPMat. Foto de 2012.

Do Rio de Janeiro, o primeiro a integrar a equipe de docentes da EESC foi o físico Armando Dias Tavares, assistente de Joaquim da Costa Ribeiro nos laboratórios de Física da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ). Em seguida, colaboradores e alunos de Dias Tavares, formados sob a influência de Costa Ribeiro e Bernhard Gross (principais pioneiros da pesquisa em Materiais no Brasil) saíram da “cidade maravilhosa” para o interior paulista, a convite de Souto. Entre eles, chegaram a São Carlos em 1956 os recém- formados em Física e Química e recém-casados Sergio Mascarenhas Oliveira e Yvonne Primerano Mascarenhas – um casal que deixaria um importante legado na história da Ciência e Engenharia de Materiais na região e no país.

Num momento em que, no mundo e no Brasil, a maior parte dos recursos humanos e materiais para pesquisa em Física se destinavam à Física nuclear e de altas energias, o casal Mascarenhas optou por iniciar estudos em Física da Matéria Condensada, área na qual tinham trabalhado junto a Costa Ribeiro no Rio de Janeiro. Documentos elaborados pelo IFSC comentam que Sergio e Yvonne enxergaram nessa área duas possibilidades para o grupo de São Carlos: a de se destacar internacionalmente num campo onde existia menos concorrência, e a de gerar aplicações que tivessem um impacto positivo na economia da região e na qualidade de vida da sua população.

Assim, na década de 1960, Sergio Mascarenhas criou o Grupo de Física da Matéria Condensada. “Graças a um intercâmbio muito forte entre a USP em São Carlos, e as universidades de Princeton e Carnegie Mellon nos Estados Unidos, e também grupos da Inglaterra e da Alemanha, principalmente de Stuttgart, nós conseguimos estabelecer um programa de formação de pesquisadores bastante intenso, o qual dura até hoje”, comentou Mascarenhas em entrevista concedida em 2013 ao Boletim da SBPMat. Entre os trabalhos com maior impacto realizados naquela época pelo grupo de São Carlos, é possível citar as pesquisas ligadas a defeitos em cristais, como cristais iônicos com centro de cor, os quais foram usados posteriormente para memórias ópticas.

No final da década de 1960, uma nova instituição de ensino e pesquisa, a Universidade Federal de São Carlos (USFCar), era criada na cidade, com participação efetiva de professores do grupo da EESC. Em particular, Sergio Mascarenhas, que foi o primeiro reitor (pro tempore) da universidade, propôs a criação na instituição do primeiro curso de graduação na América Latina em Engenharia de Materiais, buscando construir uma ponte entre a Ciência de Materiais e a geração de produtos, processos e serviços. O curso iniciou suas atividades em 1970.

Em mais uma iniciativa pioneira na área de Materiais, o grupo de São Carlos, com Sergio Mascarenhas à frente da organização, recebeu na cidade a comunidade brasileira de físicos de estado sólido (na época formada por cerca de 50 pesquisadores) para realizar o “1º Simpósio Nacional de Física do Estado Sólido e Ciência dos Materiais” num pequeno galpão batizado graciosamente de Rancho das Marocas.

Prédio do Instituto de Física e Química de São Carlos em 1970, pouco antes da criação formal do IFQSC. Crédito: IFSC/USP.

Como conseqüência do caminho de crescimento, institucionalização e ganho de autonomia trilhado por Mascarenhas e seus colaboradores do grupo de São Carlos, em 1971 foi criado o Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC), cujo primeiro diretor foi o próprio Mascarenhas. O IFQSC contou desde o início com um Departamento de Física e Ciência dos Materiais, além do Departamento de Química e Física Molecular. Mais um passo foi dado em 1994, quando o IFSC foi desmembrado, dando lugar ao Instituto de Química de São Carlos (IQSC) e ao IFSC, cuja primeira diretora foi Yvonne Primerano Mascarenhas.

Outro marco da participação do IFSC na história da pesquisa em Materiais no Brasil foi a criação, em 1993, do programa interunidades em Ciência e Engenharia de Materiais da USP em São Carlos. Administrado pelo IFSC, o programa reúne docentes desse instituto, do IQSC e da EESC, além de pesquisadores de outras instituições da região.

Atuação com impacto acadêmico e social

Além de participar do programa interunidades, o IFSC possui um dos programas de pós-graduação em Física mais conhecidos e disputados do país, o qual tem obtido nota máxima nas avaliações da CAPES desde sua criação. Dentro de seu mestrado e doutorado, é possível pesquisar uma ampla variedade de temas, que inclui diversas possibilidades na área de Materiais, desde pesquisas fundamentais em Física da Matéria Condensada até estudos sobre materiais semicondutores, polímeros, cerâmicas e vidros. Ainda na área de Materiais, o IFSC atualmente possui grupos de pesquisa consolidados, como, por exemplo, o Grupo de Polímeros “Professor Bernhard Gross”, e abriga projetos de grande porte, como Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) e Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CePIDs).

Entretanto, o impacto acadêmico da atuação na área de Materiais do grupo de São Carlos que gerou o IFSC tem ultrapassado os limites do município de São Carlos. De acordo com o professor Antonio Carlos Hernandes, a primeira consequência dessa atuação foi a formação de doutores que passaram a atuar na área em outras instituições de ensino superior. “Com isso muitos centros universitários e de pesquisa que atuam em Materiais nos dias de hoje tem em seu DNA a formação no IFSC”, diz Hernandes.

“O IFSC reúne o que é essencial para a pesquisa de qualidade em materiais, com infraestrutura de equipamentos e pessoal com experiência em diversos tipos de materiais”, afirma o professor Osvaldo Novais de Oliveira Junior, vice-diretor do IFSC para o período 2012-2016. Contando com esses recursos, acrescenta Novais, formaram-se centenas de mestres e doutores em Materiais, muitos dos quais se tornaram líderes de grupos de pesquisa em todas as regiões do Brasil. “Esses líderes de várias instituições, assim como outros que fazem parte do IFSC, têm hoje papel relevante na organização da comunidade de Materiais no país, com atuação na SBPMat, realização de eventos e programas de cooperação nacional e internacional, e formulação de políticas públicas”, completa.

Mas o impacto da atuação do IFSC na área de Materiais vai além do ambiente acadêmico. O professor Hernandes destaca, entre outros exemplos, a criação de empresas de base tecnológica instaladas na cidade de São Carlos. “Essas empresas de alta tecnologia nasceram do trabalho de pesquisadores do IFSC, quase sempre envolvendo pesquisa em Materiais”, acrescenta o professor Novais, que também traz à tona outro tipo de contribuição social realizada pelos professores e pesquisadores do instituto, o “incansável trabalho de popularização da ciência, com programas diversos de extensão universitária, voltados para alunos do ensino médio e fundamental, assim como para o público em geral”.

Para saber mais.

Um aniversário na comunidade de pesquisa em Materiais: 10 anos do PGMAT – UCS.


Mutirão de professores, estudantes e funcionários para receber, através de uma janela desmontada, equipamentos para o Laboratório de Caracterização de Materiais I do PGMAT-UCS. Ano 2007. (Foto do acervo do PGMAT-UCS)

Este mês de agosto registra o 10º aniversário de um dos 31 programas de pós-graduação recomendados atualmente pela Capes dentro da Área de Materiais: o Programa de Pós-Graduação em Materiais (PGMAT) da Universidade de Caxias do Sul (UCS) – universidade comunitária presente em nove cidades do nordeste do Rio Grande do Sul, com sede em Caxias do Sul.

A história do PGMAT-UCS remonta-se ao ano de 2003, quando Israel Baumvol, físico e pesquisador da área de Materiais, foi convidado por autoridades da UCS a liderar a criação de um programa de pós-graduação nesse campo do conhecimento. Baumvol estava, na época, se aposentando de seu cargo de professor titular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em agosto de 2004, após realizar um processo seletivo que teve 85 inscritos para 15 vagas, o PGMAT-UCS iniciava as atividades de seu curso de mestrado recém aprovado pela CAPES com nota 3, sob a coordenação do professor Baumvol. O programa contava então com alguns laboratórios que já existiam na universidade e poucos professores com diploma de doutor, e oferecia o único curso de pós-graduação da universidade na área de Ciências Exatas e Engenharias.

Hoje com nota 5 na CAPES (conceito “muito bom”), o programa possui mais de 20 laboratórios e um corpo docente com 70% de bolsistas de produtividade. Desde 2012, o PGMAT oferece também um curso de doutorado, que tem atualmente 19 alunos.

No mesmo local da foto anterior, hoje funciona o Laboratório de Caracterização de Superfícies em Nanoescala. Frente à janela, um equipamento para análises pela técnica GDOES. (Foto do acervo PGMAT)

Outra conquista do programa foi a assinatura de um convênio com a Escola Europeia de Engenheiros em Engenharia de Materiais (EEIGM, na sigla em francês) para dupla diplomação em nível de mestrado. Duas mestras já se formaram com esse duplo diploma depois de realizar atividades acadêmicas na UCS e na EEIGM, sediada na cidade francesa de Nancy.

Quanto à produção científica, mais de 300 artigos foram publicados em periódicos internacionais pelos docentes e discentes do programa em seus 10 anos de existência.

Impacto da pesquisa na indústria

Desde o início, a equipe do PGMAT-UCS procurou a interação com empresas da região, embasada na afinidade que a Ciência e a Engenharia de Materiais têm com quase todos os segmentos industriais. Assim, já em 2003, os docentes da UCS envolvidos na criação do programa visitaram empresas de Caxias do Sul para levantar suas demandas.

Em várias oportunidades ao longo de sua história, o PGMAT-UCS pôde contar com recursos de empresas e entidades do setor industrial, principalmente, do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (SIMECS), os quais complementaram as verbas públicas na compra de equipamentos para os laboratórios do programa.

Inauguração do Laboratório de Engenharia de Superfícies e Tratamentos Térmicos, realizada em 2007, contou com representantes da indústria. Ao microfone, o prof. Israel Baumvol, na época coordenador do PGMAT-UCS. (Foto do acervo da UCS)

Em seus 10 anos de existência, o PGMAT-UCS diplomou 90 mestres. Dentre eles, 45% trabalham em empresas da região, 10% são docentes universitários e 30% fazem ou fizeram doutorado.

Em alguns casos, os próprios trabalhos de mestrado foram fundamentais para o desenvolvimento de novos produtos na região. Esse foi o caso do Celtrav®, um material de alto desempenho para ser usado em molas e batentes, que compõe o portfólio de produtos da empresa Travi. Uma pesquisa de mestrado no PGMAT também foi importante no desenvolvimento de um revestimento para ornamentos utilizados em algumas linhas de calçados da fabricante Grendene. Segundo informações da empresa, cerca de 18 milhões de pares de calçados com esses enfeites foram comercializados em 2013.

Jovens empreendedores que fundaram empresas de base tecnológica a partir de trabalhos desenvolvidos no PGMAT também estão entre os estudantes e egressos do programa. A Plasmar Tecnologia, uma dessas empresas spin-off, atende hoje centenas de indústrias da região com tratamentos de superfície a plasma que melhoram o desempenho e a vida útil de moldes, matrizes e outras peças e componentes. O outro exemplo é a Fineza, empresa recém-lançada ao mercado, dedicada a fabricar e comercializar produtos de casa e cozinha com revestimentos decorativos que foram otimizados dentro de um trabalho de mestrado do programa.

Aniversário da Área de Materiais da CAPES. Parte 1.


Neste final de janeiro de 2014, a comunidade brasileira de pesquisa em Materiais tem um aniversário para comemorar: a área de Materiais da CAPES/MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação) completa seu sexto ano de existência.

De fato, foi no dia 30 de janeiro de 2008 que a Assessoria de Imprensa da CAPES publicou uma nota em que anunciava a introdução de modificações na tabela das áreas do conhecimento. Essa tabela estabelece uma relação das áreas do conhecimento, organizadas em grandes áreas, áreas, subáreas e especialidades, e é utilizada nas avaliações dos programas de pós-graduação no Brasil. Entre as mudanças divulgadas na nota em questão, consta a inserção da área “Materiais”, até então inexistente, que a partir daquele momento faria parte da grande área “Multidisciplinar”, a qual havia sido criada recentemente.

Um dia antes dessa divulgação, o ofício circular 014/2008 da Diretoria de Avaliação da CAPES tinha sido enviado a todos os coordenadores de programas de pós-graduação identificados previamente como possíveis aderentes a serem agrupados na nova área.  O ofício informava que uma reunião recente do Conselho Superior da CAPES aprovara a criação da nova área de avaliação “Materiais”, e também que tinha sido nomeado para coordenador pró-tempore o físico Lívio Amaral, professor da UFRGS. Além disso, o ofício pedia aos coordenadores que, se fosse do interesse de seus programas vincular-se à nova área de avaliação, comunicassem essa decisão.

Os antecedentes

Em setembro de 2002, o professor Amaral participara de uma reunião na sede do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) convocada pelo professor Celso de Melo, que era diretor no conselho. O tema da reunião era a área de Ciência e Engenharia de Materiais e os Comitês Assessores daquele órgão, e os outros participantes eram os professores Glória de Almeida Soares (COPPE-UFRJ), Elson Longo (UFSCar) e João Marcos Alcoforado Rebello (COPPE-UFRJ).

Um documento assinado pelos participantes da reunião explicita problemas na avaliação de projetos de pesquisa da área de Materiais. Em poucas palavras, ao não existir, nesse momento, Comitê de Assessoramento da área de Materiais, os projetos e pedidos de bolsa de produtividade referentes à Ciência ou Engenharia de Materiais eram muitas vezes avaliados com parâmetros discutíveis ou encaminhados de área em área até achar quem pudesse avaliá-los, situação que aumentava significativamente o número de recursos recebidos pelo CNPq e o tempo de resposta para o pesquisador proponente. Para resolver este problema, propunha-se no documento, inicialmente, criar uma comissão com representantes das diferentes áreas do conhecimento que envolvem “Materiais” e, igualmente, que deveriam ser chamadas ao debate  as sociedades científicas com alguma relação com materiais, para que, qualquer que fosse o encaminhamento futuro, o mesmo contasse com amplo respaldo da comunidade técnico-científica.

“Desde a metade dos anos 1990 esta questão de uma área de Materiais nas agências de fomento já era considerada”, diz Lívio Amaral. “Isto se dava no contexto da criação de uma sociedade brasileira de Materiais tendo como referência a MRS, o que acabou ocorrendo no início dos anos 2000. Na época havia bastante debate em várias situações como, por exemplo, nos Encontros Nacionais de Física da Matéria Condensada da Sociedade Brasileira de Física”, completa.

Em paralelo, o professor Amaral estava acompanhando essa questão dentro da CAPES, onde era coordenador da área de Física e Astronomia. De acordo com Amaral, por meio das avaliações trienais, era possível verificar que vários programas de pós-graduação, independentemente do nome que tinham e em quais áreas da CAPES estavam abrigados, formavam mestres e doutores com produção intelectual em Materiais. “Como, além de coordenador de área, eu participava do Conselho Técnico-Científico da CAPES, tinha a oportunidade de levar toda esta questão para debate naquele Conselho”, lembra o professor.

No período, Jorge Almeida Guimarães, que se tornaria presidente da CAPES em 2004, era coordenador da área de Biológicas II, e, da mesma forma que o professor Amaral, participava do Conselho Técnico-Científico e era professor da UFRGS. “Nós discutíamos bastante sobre a necessidade de se criar duas novas áreas, a de Materiais e a de Biotecnologia”, relata Lívio Amaral.

Além disso, lembra Amaral, ocorria então outra favorável coincidência. O presidente da CAPES nesse momento era o professor Abílio Afonso Baeta Neves, que tinha sido anteriormente pró-reitor de pós-graduação da UFRGS no período em que fora encaminhado o programa de pós-graduação em Ciência dos Materiais na universidade por iniciativa de professores dos departamentos de Física, inclusive Amaral, Engenharia e Química. “Em síntese, neste quadro, a discussão sobre novas áreas, dentro e fora do Conselho Técnico-Científico, era bastante frequente por essas circunstâncias”, resume o professor Amaral.

Reunião do Conselho Técnico-Científico da CAPES no período da presidência do professor Abílio Baeta Neves. Sentados à mesa, o terceiro a partir da esquerda é o presidente; o sexto, falando, é o professor Jorge Guimarães; o sétimo é o professor Lívio Amaral. (Foto cedida por Lívio Amaral)

 A decisão da criação

De acordo com Amaral, em julho de 2007, a CAPES realizou uma reunião em Brasília tendo em vista a possível criação de uma nova área do conhecimento, a se denominar “Materiais”. Representantes de vários programas de pós-graduação foram convidados, inclusive o professor Lívio, que, à época, era coordenador do programa da UFRGS.

No ofício-convite enviado pela Diretoria de Avaliação da CAPES, constava: “A agência tem conferido a essa área a importância merecida, dada a relevância que tem, na ciência e na tecnologia atuais, a criação de novos materiais. O Conselho Superior da CAPES, além disso, já autorizou a Diretoria a criar a área em questão. Para tal decisão, a reunião do dia 31 de julho será decisiva, porque permitirá concluir se é ou não do interesse dos programas – e da ciência e tecnologia brasileiras – essa medida inovadora. A nova área reuniria todos os programas que – repartidos hoje por distintas áreas do conhecimento – destacam esse tema prioritário para o País e para a ciência aplicada”.

“A reunião, então, foi conclusiva para criação da nova área e desenhou os marcos iniciais para a mesma”, afirma Amaral. Assim, na data de 25 de janeiro de 2008 foi publicada no Diário Oficial da União a portaria 09 da CAPES, que no seu artigo 3o criava duas novas áreas de conhecimento, “Materiais” e “Biotecnologia”, e designava seus coordenadores pro tempore.

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Anexo

Relação dos programas de pós-graduação que aderiram à área de Materiais (situação de março de 2008).

1. Programa de Pós-Graduação em Materiais – UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL
2. Programa de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
3. Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciência dos Materiais – UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
4. Programa de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais – UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNANBUCO
5. Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia dos Materiais – UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” – UNESP-BAURÚ
6. Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Materiais – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – ESCOLA DE ENGENHARIA DE LORENA
7. Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia dos Materiais – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
8. Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia dos Materiais – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – SÃO CARLOS
9. Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia dos Materiais – UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” – UNESP- CAMPUS DE ILHA SOLTEIRA
10. Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia dos Materiais – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA.

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História da pesquisa em Materiais: O I Encontro da SBPMat.


De 7 a 10 de julho de 2002, no hotel Pestana Rio Atlântida, frente à praia de Copacabana (Rio de Janeiro), ocorria o encontro inaugural da recém-fundada Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais, o I Encontro da SBPMat. O evento reuniu cerca de 400 cientistas – um número muito positivo para um primeiro evento, como destaca o professor Guillermo Solórzano (PUC-Rio), então presidente da SBPMat e líder da organização do encontro.

Além do mérito de reunir uma quantidade significativa de participantes, o I Encontro da SBPMat conseguiu transmitir o espírito da SBPMat, já presente na gênese da sociedade, por meio de suas duas características principais, a internacionalização e a interdisciplinaridade.

Caráter internacional e interdisciplinar

Vários aspectos contribuíam ao caráter internacional do evento. Os 400 cientistas participantes eram originários de 18 países diferentes. A comissão organizadora de programa incluía os presidentes das sociedades de pesquisa em Materiais dos Estados Unidos (MRS) e da Europa (E-MRS), respectivamente Alexander King (MRS) e Giovanni Marletta (E-MRS). A programação também enfatizava a cooperação internacional por meio de sessões plenárias sobre ferramentas de colaboração e instrumentos de financiamento de projetos de colaboração internacional, com apresentações de representantes da união internacional de sociedades de pesquisa em Materiais (IUMRS, na sigla em inglês); da National Science Foundation (NSF, a agência estadunidense de incentivo à pesquisa), e do CNPq. A repercussão do evento na comunidade científica mundial da área também foi importante, como atesta o relatório escrito por Alexander King e publicado no MRS Bulletin de outubro desse ano.

Nesse texto, o presidente da MRS destacava a “programação fortemente interdisciplinar, que provocou discussões formais durante as sessões e também informais”. De fato, os temas dos simpósios que constituíram o eixo do evento iam muito além da clássica divisão do conhecimento em Física, Química, Engenharias etc. Os cinco simpósios do encontro inaugural da SBPMat trataram sobre materiais e sistemas nanoestruturados; biomateriais; materiais e dispositivos semicondutores; eletrocerâmicos, e modificação superficial de filmes e materiais poliméricos.

Além de destacar o espírito internacional e interdisciplinar do evento, comentários enviados à diretoria da SBPMat por cientistas e autoridades de entidades do Brasil e do exterior elogiavam o nível científico dos trabalhos apresentados e o profissionalismo da organização, entre outras questões.

Um formato de evento bem-sucedido

O evento estabeleceu o formato, similar ao da MRS, que seria usado até a atualidade nos encontros da SBPMat: simpósios com apresentação de trabalhos da comunidade por meio de orais e pôsteres, palestras plenárias e estandes de empresas, principalmente fabricantes e representantes de equipamentos para pesquisa. Na ocasião, foram apresentados mais de 400 trabalhos nos simpósios. O encontro também contou com um workshop sobre “powder materials”.

A forma de organização dos simpósios, comenta o professor Solórzano, foi inovadora para o Brasil, como por exemplo no incentivo a que cada simpósio tivesse organizadores do país e do exterior. Um exemplo foi o simpósio sobre materiais e sistemas nanoestruturados, que contou com os presidentes da MRS e da E-MRS como organizadores do exterior e com os professores Celso Pinto de Melo (da UFPE e na época diretor do CNPq), Fernando Lázaro Freire Jr. (da PUC-Rio e membro da diretoria fundadora da SBPMat) e o próprio Solórzano como organizadores nacionais. Além disso, os simpósios tinham que ter, desde o início, uma comissão científica explicitada no site do evento, à qual pertenciam os revisores dos trabalhos que seriam submetidos. “Isso não acontecia em outros congressos nacionais”, compara Solórzano. “Naquela época, você mandava um trabalho para um congresso no Brasil e não sabia onde ia parar”.

Periodicidade

A organização do encontro inaugural da SBPMat foi uma das primeiras ações da gestão de Guillermo Solórzano enquanto presidente da diretoria fundadora da SBPMat (2001 -2003). Além de superar suas expectativas quanto ao número de participantes, o I Encontro trouxe mais uma surpresa para o presidente da sociedade. “Eu tinha imaginado que teríamos encontros bienais, mas, na sessão de encerramento do primeiro encontro, que foi como uma assembleia, avaliou-se muito bem o evento e se decidiu que devia ser anual!”, comenta o professor. Assim, logo após a finalização do encontro inaugural, começaram as providências para a organização do II Encontro da SBPMat, o qual seria realizado em outubro de 2003, também no Rio de Janeiro, ainda com Solórzano a frente da SBPMat. A periodicidade anual dos eventos da sociedade se mantém até a atualidade.

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Se você participou do encontro inaugural da SBPMat, compartilhe conosco as suas lembranças e, se tiver, fotografias ou documentos, usando o campo para comentários abaixo ou enviando e-mail para comunicacao@sbpmat.org.br.

História da SBPMat: concepção e gestação.


Agradecimentos ao professor Zanotto, coordenador do workshop junto ao professor Solórzano. (Arquivo pessoal de Edgar Zanotto).

Nas lembranças do professor Edgar Dutra Zanotto, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat), um marco importante no processo de criação da SBPMat foi o evento “Frontiers in Materials Research, Technology and Education. A Workshop to Advance Pan-American Collaboration”, ocorrido entre 7 e 10 de junho de 1998 no Rio de Janeiro. O evento foi organizado pela National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos, conjuntamente com instituições ligadas à ciência e tecnologia da Argentina, Brasil (CNPq, FINEP, MCT e PUC-Rio) e Chile, visando impulsionar o progresso na área de Materiais por meio de colaborações, não apenas entre diversas áreas do conhecimento, mas também entre os países do continente americano e entre a academia e a indústria. Os chairmen brasileiros do evento foram o próprio Zanotto (professor da UFSCar, formado em Engenharia de Materiais com mestrado em Física e doutorado em Tecnologia de Vidros) e o professor Guillermo Solórzano (professor da PUC-Rio com formação voltada à Engenharia de Materiais-Metalurgia).

O workshop foi uma oportunidade para discussões sobre temas já presentes no cenário brasileiro de pesquisa em Materiais: a fraca interação com pesquisadores latino e norte-americanos, a necessidade de interdisciplinaridade, a pouca interação existente entre empresas e universidades, a inexistência de uma revista científica forte e de uma sociedade científica interdisciplinar sobre Materiais.

Participantes do workshop panamericano, que foi um marco no processo que levou à fundação da SBPMat. (Foto do arquivo pessoal de Guillermo Solórzano)

De acordo com um documento de novembro de 2000 assinado por Zanotto e Solórzano, no workshop panamericano ficou evidente que a comunidade brasileira de Materiais necessitava uma sociedade científica organizada e que a representasse.  “A própria comunidade internacional da área tem manifestado surpresa com a inexistência deste tipo de sociedade no Brasil”, diz o documento. De fato, a Materials Research Society dos Estados Unidos (MRS), que serviu como modelo à SBPMat para dar os primeiros passos, tinha sido fundada em 1973. Outro exemplo era a Asociación Argentina de Materiales, fundada em 1993.

Esse mesmo documento afirma que “tem crescido progressivamente na comunidade brasileira o contingente de pesquisadores de Materiais”.  Nas lembranças do professor Elson Longo, na época “as publicações em Materiais dos grupos principais já eram relevantes e ligadas a revistas internacionais especializadas de alto nível, mas a criação da SBPMat incrementou ainda mais esse tipo de publicação ”. Longo, químico com mestrado e doutorado em Físico-Química e então professor da UFSCar, participou da gênese da SBPMat dando apoio e fazendo ampla propaganda da importância da criação da sociedade para o desenvolvimento da pesquisa no Brasil.  Num segundo momento, assumiu a direção da sociedade junto ao professor Roberto Mendonça Faria, e presidiu a SBPMat de 2004 a 2005.

O segundo a partir da esquerda na fila da frente é o professor Solórzano, um dos coordenadores do evento. (Foto do arquivo pessoal de Guillermo Solórzano)

O físico Aldo Craievich (USP) comenta que, no ano 2000, já havia um importante número de grupos de pesquisa em Materiais, o qual foi aumentando durante a última década. “Os pesquisadores que realizavam pesquisas básicas no início deste século já publicavam principalmente em revistas internacionais, enquanto os pesquisadores em áreas tecnológicas/industriais publicavam uma fração importante de seus trabalhos em revistas nacionais, tais como a Revista da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM) e os Anais do Congresso Brasileiro de Engenharia e Ciência dos Materiais (CBECiMat),  em muitos casos em português”, diz o professor Craievich.

O professor Sergio Machado Rezende (UFPE), engenheiro eletrônico com mestrado e doutorado em Física, que também apoiou desde o início a iniciativa de fundação da SBPMat, recorda que “até a criação da sociedade, na engenharia, a área de Materiais ficava no departamento de Metalurgia das universidades, porque as engenharias tradicionais (civil, mecânica, eletrônica) não tinham muita pesquisa em Materiais”.

Em outubro do mesmo ano do workshop pan-americano (1998), foi publicada a primeira edição da revista científica Materials Research – Revista Ibero-Americana de Materiais (ISSN 1516-1439). “É interessante notar que esse periódico de natureza interdisciplinar também surgiu de discussões realizadas mais ou menos na mesma época, na década de 1990, nas assembleias do CBECiMat”, comenta o professor Zanotto, que foi o primeiro editor-chefe desse periódico e permaneceu nesse cargo durante treze anos, até outubro de 2010. O CBECiMat vinha sendo organizado desde 1974 com o apoio da ABM, da Associação Brasileira de Cerâmica (ABC) e da Associação Brasileira de Polímeros (ABPol), associações das quais participavam pesquisadores, principalmente engenheiros, e entidades de classe ligadas à indústria. Essas três associações foram as fundadoras da revista Materials Research, que aos poucos passou a congregar também quatro sociedades parceiras: a Sociedade Brasileira de Crescimento de Cristais (SBCC), a Sociedade Brasileira de Cristalografia (SBCr), a Sociedade Brasileira de Microscopia e Microanálise (SBMM) e a própria SBPMat.

Outros eventos que reuniam uma parte dos pesquisadores de Materiais brasileiros eram as reuniões que a MRS organizava duas vezes por ano nos Estados Unidos.  “Muitos físicos já participavam naquela época desses encontros da MRS”, lembra o professor Rezende.

Apresentação da proposta à comunidade brasileira

No início do ano 2000, após um estágio nos Estados Unidos, no qual participara de um encontro da MRS, Guillermo Solórzano deu início aos esforços realizados para fundar uma sociedade brasileira de pesquisa em Materiais. “Nesse momento ele iniciou conversas com pesquisadores brasileiros que poderiam se interessar por essa empreitada”, diz Edgar Zanotto. O professor Solórzano é, de fato, lembrado por Zanotto como “nucleador da SBPMat” e por Rezende como “principal articulador da ideia da criação da SBPMat”. Aldo Craievich diz ainda que Solórzano foi “o pesquisador que fez a primeira proposta pública e mais batalhou durante a fase que conduziu, desde as conversas preliminares à fundação da SBPMat”.

Edgar Zanotto foi um dos pesquisadores procurados por Solórzano. “Quando retornou dos EUA com essa ideia, Guillermo me consultou; eu imediatamente concordei com a proposta e então ele solicitou que eu convidasse pesquisadores renomados da área de Materiais, de São Paulo e São Carlos, para reuniões presenciais sobre a proposta. Ele também pediu que eu realizasse diligências junto à diretoria e a comunidade da Associação Brasileira de Cerâmica”, relata Zanotto.

Sergio Rezende foi outro dos pesquisadores procurados por Solórzano. “Eu me lembro que o Guillermo me disse que ele iria apresentar a proposta da SBPMat numa reunião de Física da Matéria Condensada, mas que precisava do apoio de físicos”. Imediatamente, Rezende disse que via a iniciativa com bons olhos e que considerava importante haver participação de físicos nela, porque a área de Materiais nos países mais desenvolvidos era interdisciplinar já naquela época, envolvendo engenheiros, físicos, químicos e outros cientistas.

Zanotto comenta que o envolvimento de físicos e químicos renomados era um claro objetivo dos pesquisadores que participaram da gestação da SBPMat. “O apoio e incentivo desses físicos e químicos, que gostaram da idéia, viabilizou a efetiva criação da SBPMat”, conclui Zanotto.

Além da apresentação no Encontro de Física da Matéria Condensada lembrada pelo professor Rezende, houve, pelo menos, mais dez reuniões realizadas ao longo do ano 2000 em cidades das regiões Sul, Sudeste e Nordeste (veja Anexo 1). De acordo com o professor Zanotto, “as cidades foram escolhidas com base no número de pesquisadores locais da área de Materiais e, várias vezes, aproveitado a realização de congressos científicos relacionados a Materiais”.

Nas recordações do professor Longo, nesse ano de 2000 houve uma participação muito forte do Instituto de Física da USP e dos Departamentos de Química, Física e Engenharia de Materiais da UFSCar. “Mobilizados, eles deram uma consistência maior para a sociedade que estava nascendo. A partir daí houve uma participação da nossa comunidade como um todo, para viabilizar a nova sociedade”, lembra.

A respeito do conteúdo das reuniões realizadas, Zanotto comenta: “Se recordo bem, uma das principais conclusões foi que havia pouca interação no Brasil entre engenheiros, físicos e químicos e que urgia fomentar a interdisciplinaridade – característica necessária para o desenvolvimento da pesquisa em materiais!”.

Aldo Craievich, que participou de várias dessas reuniões e eventos e no intercâmbio de mensagens eletrônicas, sempre apoiando a criação da SBPMat, acrescenta que, nessa fase de gestação da sociedade, a ideia era criar uma entidade de características similares às da MRS dos Estados Unidos.  “A principal função da nova associação seria a de organizar encontros anuais compostos de simpósios temáticos, como os da MRS. Ponderou-se que esses encontros deveriam ter um forte caráter internacional, com ampla participação de pesquisadores estrangeiros, e utilizando preferentemente o idioma inglês nas apresentações e no livro de resumos”, comenta. O professor Craievich acrescenta ainda que, na época, definiu-se que a SBPMat seria uma sociedade de forte vocação interdisciplinar (incluindo físicos, químicos e engenheiros de Materiais), com importante inserção na comunidade internacional de Materiais e que abrangeria tanto as pesquisas básicas quanto as aplicadas e as de interesse tecnológico.

Dificuldades e resistências

Em decorrência dessas reuniões, houve centenas de adesões à iniciativa de fundar a SBPMat, feitas pelo correio eletrônico. O documento de novembro de 2000 registra mais de 300 e-mails de pré-afiliação à sociedade em gestação ou de apoio à iniciativa, e apenas dois ou três apresentando críticas.

Entretanto, resistências à criação de uma sociedade brasileira interdisciplinar de pesquisa em Materiais existiram. Edgar Zanotto se lembra de uma acirrada oposição por parte de pesquisadores que consideravam que não haveria espaço para mais uma associação voltada a Materiais. “Muitos colegas que participaram das reuniões de apresentação da proposta eram membros ou haviam passado pela diretoria das associações brasileiras de cerâmica (ABC), metalurgia (ABM) e polímeros (ABPol), as quais, por sua vez, já realizavam seus respectivos congressos anuais; nem sempre com audiência significativa”. Alem disso, acrescenta o professor, ao menos um congresso de caráter interdisciplinar já vinha sendo organizado bienalmente pelo mesmo pessoal daquelas três sociedades, o acima citado CBECiMat.

Conforme menciona o professor Craievich, a coexistência de congressos relacionados com Materiais acontece também nos Estados Unidos, onde, além dos eventos da MRS, existem os organizados pela TMS (The Minerals, Metals & Materials Society). “Essas duas séries de reuniões congregam anualmente vários milhares de participantes e não parece que haja uma superposição ou conflito entre elas”, diz o professor. “Me parece que esse mesmo comentário se aplica ao que acontece no Brasil, onde coexistem as reuniões periódicas da SBPMat, da ABM e o CBECiMat, além das reuniões mais específicas, por exemplo, sobre materiais cerâmicos e polímeros”, completa.

O professor Rezende lembra-se da oposição enfrentada entre os físicos. “Infelizmente, sempre que vem uma coisa nova tem certas resistências. Alguns físicos diziam que haveria uma dispersão da área de Física, a qual já tinha a Matéria Condensada”, comenta.  Resumindo, Rezende conclui que uma minoria dos físicos era resistente à criação da sociedade e uma boa parte não se envolveu muito no início, mas que um envolvimento maior foi surgindo gradualmente, principalmente por parte dos pesquisadores da área de Matéria Condensada e os físicos experimentais. “Hoje os físicos têm uma participação grande na SBPMat. E essa participação com a engenharia é muito importante”, afirma o professor.

Para o professor Longo, o maior desafio para criação da sociedade foi a falta de financiamento para o deslocamento dos organizadores. “Via de regra, eles utilizaram verba pessoal para estruturar a sociedade”, diz.

Rumo aos estatutos

Apesar dessas dificuldades e resistências, no final do ano 2000 a criação da SBPMat contava com adesão e força motriz suficientes para avançar mais um passo, registrado no documento de novembro desse ano: a formação de  uma comissão interdisciplinar de Materiais, constituída por pesquisadores “de liderança e expressão”, “representativa das diversas regiões do país e das diferentes áreas de pesquisa em Materiais, incorporando engenheiros, físicos e químicos” dispostos a colaborar na empreitada (veja Anexo 2). O documento deixava aberta a possibilidade de participação a outros pesquisadores.

Essa comissão elaboraria os estatutos da futura SBPMat, que seria finalmente instituída numa assembleia de junho de 2001 e formalmente constituída em janeiro de 2002.

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Anexo 1. As reuniões de apresentação da proposta.

Por iniciativa do professor Guillermo Solórzano, a proposta de criação da SBPMat foi apresentada numa série de reuniões e eventos ao longo de 2000. As apresentações ocorreram graças a ajuda de muitos pesquisadores que permitiram articulá-las e contaram com a presença de Solórzano e seus colaboradores. Segue a relação das reuniões das quais se tem registro em documentos da SBPMat e na lembrança de seus criadores:

  • em São Lourenço (MG), durante o Encontro de Física da Matéria Condensada, no mês de maio;
  • na PUC-Rio (Rio de Janeiro, RJ) no dia 28 de agosto;
  • na UFPE (Recife, PE), também em 28 de agosto;
  • no IPEN (São Paulo, SP) no dia 30 ou 31 de agosto;
  • na UFMG (Belo Horizonte, MG) no dia 1º de setembro;
  • em Canela (RS), em 7 de setembro, durante o congresso Ion Beam Modification of Materials;
  • na UFSC (Florianópolis, SC) no dia 11 de setembro;
  • em Joinville (SC), no dia 12 ou 13 de setembro, durante o SULMAT (Congresso em Ciência de Materiais da região Sul);
  • na UFSCar (São Carlos, SP) em 22 de setembro;
  • na UFPR (Curitiba, PR) em 26 de novembro;
  • em Águas de São Pedro (SP), em 4 de dezembro, durante o CBECiMat.

Anexo 2. Participantes da Comissão Interdisciplinar de Materiais, de acordo com documento de novembro de 2000. Essa comissão elaborou os estatutos da futura SBPMat.

  • Aldo Felix Craievich (USP)
  • Aloísio Nelmo Klein (UFSC)
  • Angelo Fernando Padilha (USP)
  • Edgar Dutra Zanotto (UFSCar)
  • Elisa Maria Baggio Saitovitch (CBPF)
  • Elson Longo da Silva (UFSCar)
  • Evando Mirra de Paula e Silva (CNPq)
  • Fernanda Margarida Barbosa Coutinho (IMA – UFRJ)
  • Fernando Galembeck (UNICAMP)
  • Fernando Lázaro Freire Junior (PUC-Rio)
  • Ivan Guillermo Solórzano-Naranjo (PUC-Rio)
  • José Antonio Eiras (UFSCar)
  • José Arana Varela (UNESP)
  • Luiz Henrique de Almeida (UFRJ)
  • Moni Behar (UFRGS)
  • Renato Figueiredo Jardim (USP)
  • Roberto Villas Bôas (CETEM)
  • Sergio Machado Rezende (UFPE)
  • Wander Luiz Vasconcelos (UFMG)

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Nota do Boletim da SBPMat. Por questões de agenda, Guillermo Solórzano, que no momento da reportagem exerce o cargo de Ministro Coordinador del Conocimiento y Talento Humano no Equador, não pôde participar diretamente desta matéria.

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XII Encontro da SBPMat: evolução da pesquisa em Materiais no Brasil será tema da palestra memorial.


No Convention Center de Campos do Jordão, logo após a cerimônia de abertura do XII Encontro da SBPMat e antes do coquetel, os participantes do evento poderão assistir à terceira edição da palestra memorial “Joaquim Costa Ribeiro”, na qual o professor Elson Longo falará sobre a evolução da pesquisa em Materiais no Brasil.

Sobre a palestra

Quando: 29 de setembro (domingo), das 20h00 às 21h00.

Título: “Evolução da pesquisa em Materiais no Brasil”

Resumo: Desde a fundação do curso de Ciência dos Materiais na UFSCar, São Carlos (SP), o país vem evoluindo de modo constante nesta área de conhecimento. É importante ressaltar que esse curso catalisou pesquisadores de Engenharia, Química e Física para o desenvolvimento de materiais cerâmicos, poliméricos e compósitos. Por outro lado, houve também uma ampliação dos cursos de Materiais a nível de graduação e pós graduação, o que contribuiu enormemente para o desenvolvimento da área. Com essa nova estrutura, houve a necessidade da criação da Sociedade Brasileira de Materiais, que vem evoluindo de modo positivo ao longo dos últimos 10 anos.