IUMRS-ICEM 2018.


International Union of Materials Research Societies – International Conference on Electronic Materials 2018 (IUMRS-ICEM 2018)

Participação de jovens sócios da SBPMat em eventos internacionais sobre materiais para sustentabilidade.


O grupo da SBPMat na sede do Conselho da Europa. A partir da esquerda, Gisele Amaral-Labat (sócia SBPMat), Eduardo Neiva (sócio SBPMat), o professor Osvaldo Novais de Oliveira Jr (presidente da SBPMat), Kassio Zanoni (sócio) e Parinaz Akhlaghi (sócia).
O grupo da SBPMat na sede do Conselho da Europa. A partir da esquerda, Gisele Amaral-Labat (sócia SBPMat), Eduardo Neiva (sócio SBPMat), o professor Osvaldo Novais de Oliveira Jr (presidente da SBPMat), Kassio Zanoni (sócio) e Parinaz Akhlaghi (sócia).

Quatro sócios da SBPMat fizeram parte do seleto grupo de cerca de 30 jovens pesquisadores de diversos países que participou de dois eventos realizados na cidade de Estrasburgo (França), junto a outros 60 participantes. O grande assunto de ambos os eventos foi a inovação em materiais visando a uma sociedade sustentável e a uma economia global circular (ou seja, baseada na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e/ou energia). Os eventos foram organizados por várias sociedades de pesquisa em Materiais do mundo, a União Internacional de Sociedades de Pesquisa em Materiais (IUMRS) e outras entidades, com apoio da UNESCO.

Os bolsistas de pós-doutorado Eduardo Guilherme Cividini Neiva (atualmente professor em tempo integral na FURB e ex-pós-doc na UFPR), Gisele Amaral-Labat (USP), Kassio Papi Silva Zanoni (IFSC-USP) e Sedeyeh Parinaz Akhlaghi (UNICAMP) foram os jovens sócios da SBPMat que participaram dos eventos. Os quatro pós-docs foram selecionados dentre 20 candidatos no contexto do Prêmio para Jovens Pesquisadores da SBPMat. Eles ganharam o direito de participarem dos eventos (que não são abertos ao público) e as despesas de estadia. O prêmio foi realizado em parceria com a Sociedade Europeia de Pesquisa em Materiais (E-MRS).

O primeiro dos eventos foi o “Fórum para a Nova Geração de Pesquisadores 2017” (Forum for the Next Generation of Researchers 2017), ocorrido durante os dias 18 e 19 de novembro deste ano na sede do Centro Europeu da Juventude. O fórum reuniu diferentes gerações de pesquisadores em torno de temas de ciência e tecnologia para um mundo sustentável. O evento incluiu palestras de cientistas seniores, apresentação dos pôsteres dos jovens pesquisadores participantes e discussões entre todos. Além disso, todos os jovens cientistas participaram da elaboração de um relatório que foi apresentado no final do evento.

Na sequência, nos dias 20 e 21 na sede do Conselho da Europa, foi realizada a “6ª Reunião da Cúpula Mundial de Materiais” (6th World Materials Summit), na qual o assunto da inovação em materiais para a sustentabilidade e para a economia circular foi discutido por meio de palestras de cientistas de diversos países e mesas redondas.

De acordo com Kassio Zanoni, as discussões dos dois eventos mostraram uma visão acadêmica, política, social e ambiental acerca de temas ligados à sustentabilidade, bem como as perspectivas da pesquisa em Materiais nesse contexto. De acordo com os participantes da SBPMat, alguns dos temas abordados foram a conversão, armazenamento e distribuição de energia (solar, por exemplo); produção de baterias mais eficientes e menos poluentes; captura e reaproveitamento de dióxido de carbono; reciclagem de materiais; entre muitos outros.

O presidente da SBPMat, Osvaldo Novais de Oliveira Jr, professor do IFSC-USP, representou a SBMat no comitê internacional da cúpula e proferiu uma palestra sobre nanomateriais e suas aplicações no fórum.

Veja nossa entrevista com os jovens sócios da SBPMat que participaram dos eventos.

box parinazBoletim da SBPMat: – Falem um pouquinho sobre o trabalho que vocês apresentaram no “Fórum para a Nova Geração de Pesquisadores 2017”.

Eduardo Neiva: – Apresentei pôster referente ao meu trabalho de pós-doutorado, cujo tema envolveu a aplicação de nanocompósitos com grafeno na construção de dispositivos de armazenamento de energia.

Gisele Amaral-Labat: – A minha exposição em painel consistiu nas atividades que estão sendo desenvolvidas atualmente no meu pós-doutorado. O trabalho se baseia na utilização do resíduo da indústria de papel e celulose, o licor negro bruto, na síntese de espumas porosas de carbono em presença de níquel, para aplicação em células de combustível a etanol direto. A forma de síntese utilizada gera um produto com uma maior quantidade de resíduos além de um baixo custo frente aos eletrocatalisadores utilizados no mercado atual.

Kassio Zanoni: – Apresentei um pôster do trabalho que venho desenvolvendo durante o pós-doc, sobre maneiras e conceitos químicos para conversão de energia e sustentabilidade.

Parinaz Akhlaghi: – Apresentei meu trabalho de pós-doutorado (referente aos anos 2015-2017) na UNICAMP (Instituto de Química), no qual ainda trabalho, bem como parte do trabalho desenvolvido durante meu doutorado (2010-2014) na University of Waterloo (Depto. de Engenharia Química), no formato de um pôster intitulado “Preparation and Characterization of Novel Nanomaterials for Biomedical Applications”.

Boletim da SBPMat: – De que maneira a participação nestes eventos contribuiu para a formação de vocês?

Eduardo Neiva: – Diferentemente de outros eventos, tive a oportunidade de participar de discussões envolvendo temas de importância global. A participação nesse evento também resultará em futuras parcerias internacionais e nacionais, onde já no evento eu e a participante Gisele idealizamos projetos a serem desenvolvidos num futuro próximo.

Gisele Amaral-Labat: – Indubitavelmente, a participação nestes eventos foi de grande importância para a minha formação acadêmica, primeiramente devido ao tipo de evento, no qual um tema em comum é discutido por duas comunidades distintas, acadêmica e empresarial, permitindo conhecer as diferentes visões globais do assunto. Em segundo lugar porque gerou a possibilidade de colaboração com outros centros de pesquisas, incluindo pesquisadores jovens e seniores, nacionais e internacionais. Ademais, o evento possibilitou o conhecimento do trabalho dos outros jovens brasileiros e uma possível colaboração com o profissional Eduardo Guilherme Cividini Neiva está em andamento. O objetivo é sintetizar materiais sustentáveis de carbono para aplicação na área de estocagem de energia aproveitando as expertises dos dois profissionais.

Kassio Zanoni: – O evento propiciou encontros entre vários pesquisadores, aumentando nossas redes de colaborações. Foi muito interessante ouvir as distintas visões e trouxe muito crescimento profissional. Com certeza, foi muito produtivo, talvez o congresso mais produtivo do qual já participei.

Parinaz Akhlaghi: – Acredito que minha participação nestes eventos foi uma das experiências mais gratificantes e de maior influência em minha carreira como pesquisadora e como ser humano. Fui afetada de uma maneira extremamente positiva estando na presença de jovens pesquisadores como eu, bem como cientistas experientes, moldando minha visão de mundo (e meu futuro), minhas ambições e desejos na carreira acadêmica. Estar na presença de cientistas que admiro há muito tempo e poder dialogar com os mesmos foi muito frutífero em diversos aspectos. Todas as discussões foram profundas, apaixonantes e motivadores. Com certeza foi uma experiência compartilhada por outros jovens cientistas.

Boletim da SBPMat: – O que chamou mais a atenção de vocês nos eventos?

Eduardo Neiva: – O contato direto e prolongado com pesquisadores renomados.

Gisele Amaral-Labat: – Fiquei encantada com a receptividade dos pesquisadores seniores pelos jovens pesquisadores. Ademais, o evento mostrou uma relevante multidisciplinariedade dos profissionais e dos trabalhos apresentados.

Kassio Zanoni: – As distintas visões sobre um mesmo tema, que variam muito entre países distintos.

Parinaz Akhlaghi: – O que a princípio poderia ser um entrave, logo se mostrou algo extremamente prazeroso. Apesar da diferença de idade entre os principais cientistas (alguns acima de 70 anos) e os jovens pesquisadores (alguns com 25 anos de idade), a troca de informações fluiu naturalmente. De ambos os lados havia paixão ao falar sobre ciências (como um todo), assim como novos caminhos e alternativas para um futuro mais esperançoso e melhor.

 

Kassio Zanoni (primeiro plano) e outros jovens pesquisadores durante o 6th World Materials Summit.
Kassio Zanoni (primeiro plano) e outros jovens pesquisadores durante o 6th World Materials Summit.
Parinaz Akhlaghi apresentando seu trabalho sobre nanomateriais para aplicações biomédicas durante o fórum.
Parinaz Akhlaghi apresentando seu trabalho sobre nanomateriais para aplicações biomédicas durante o fórum.
Eduardo Neiva (na foto à esquerda) e Gisele Amaral-Labat (foto à direita) recebendo o certificado de participação nos eventos.
Eduardo Neiva (na foto à esquerda) e Gisele Amaral-Labat (foto à direita) recebendo o certificado de participação nos eventos.

 

 

SBPMat na Assembleia Geral da IUMRS no Japão.


Participantes da assembleia geral da IUMRS. Prof. Bianchi (SBPMat) é o sexto em pé a partir da esquerda.
Participantes da assembleia geral da IUMRS. Prof. Bianchi (SBPMat) é o sexto em pé a partir da esquerda.

O professor Rodrigo Fernando Bianchi (UFOP), diretor científico da SBPMat, representou a sociedade na Assembleia Geral da IUMRS (União Internacional de Sociedades de Pesquisa em Materiais), realizada em 27 de agosto de 2017 na cidade de Kyoto (Japão) durante o evento IUMRS-ICAM 2017 (décima quinta edição da Conferência Internacional de Materiais Avançados).

A SBPMat é uma das quatorze sociedades de pesquisa em Materiais do mundo que compõem atualmente a IUMRS. As outras são as sociedades da África, Austrália, China, Cingapura, Coreia, Europa, Índia, Indonésia, Japão, México, Rússia, Tailândia e Taiwan. De acordo com Bianchi, na reunião ficou claro o interesse de diversas associações em colaborar com o Brasil.

Além de representar a SBPMat na reunião, o professor Bianchi apresentou, na IUMRS-ICAM 2017, trabalhos de seu grupo de pesquisa voltados ao desenvolvimento de sensores de radiação impressos.

Dentro da programação do evento, que contou com cerca de 1.900 participantes de dezenas de países, o que mais chamou a atenção do diretor científico da SBPMat foram as apresentações sobre aplicação da ciência e das técnicas de caracterização de materiais na conservação de recursos culturais (pinturas, monumentos etc). “Ou seja, a valorização cultural dentro da área de materiais – algo de grande importância para a conservação de patrimônio artístico, histórico e cultural de um país, e que está no contexto de Kyoto, capital cultural do Japão. O Brasil poderia seguir a mesma tendência! ”, disse Bianchi.

No evento, o professor Ado Jorio (UFMG), também membro da comunidade brasileira de Materiais, proferiu uma palestra plenária sobre espalhamento inelástico da luz em nanoestruturas de carbono.

IUMRS-ICAM 2017


MRS-Japan is honored to announce that it hosts IUMRS-ICAM 2017 at Kyoto, Japan during August 27 to September 1, 2017.  Its website is www.iumrs-icam2017.org.  The abstract submission is open.

Kyoto is ancient capital of Japan and has many temples and other places to visit.  All of you are welcome to Kyoto.  We have many attractive talks from Nobel laureates and leading scientists.  They are listed below.  We also have “Young Scientist Awards contest” during this conference.  Please visit our website for more information and submit abstract hopefully before February 28, 2017.

I am looking forward to meeting you in Kyoto.

Best regards,

Yasuro Ikuma

MRS-Japan

Call for Participation.

List of Nobel laureates and plenary lecturers (in alphabetical order)

Professor Hiroshi Amano (Japan). He received Nobel Prize in Physics 2014 for his work on the invention of efficient blue light-emitting diodes which has enabled bright and energy-saving white light sources.

Professor Elvira Fortunato (Portuguese Republic). She pioneers European research on new transparent electronics, namely thin-film transistors based on oxide semiconductors, demonstrating that oxide materials can be used as true semiconductors.

Professor Axel Hoffmann (USA). He is outstanding scientist in the field of magnetism related subjects, including basic properties of magnetic heterostructures, spin-transport in novel geometries, and biomedical applications of magnetism.

Professor Andrew Holems (Australia). He is the president of Australia Academy of Science and is the best of the best in all Australian scientists.   He has made extensive contributions in the area of light emitting and photovoltaic devices.

Professor Ado Jorio (Brazil). He is one of the scientists who received SOMIYA Award in 2009. Also, he is the authority in the field of Optical spectroscopy which provides information on the matter at the molecular level, with unlimited range of applications.

Professor George Malliaras (France). He made distinguished achievements in the field of Bioelectronics which deals with the coupling of the worlds of electronics and biology.

Professor Chintamani Nagesa Ramachandra Rao (C.N.R. Rao, India). He is head of the Scientific Advisory Council to the Prime Minister of India. On 16 November 2013, the Government of India announced his selection for Bharat Ratna which is the highest civilian award in India.

Professor Akira Suzuki (Japan). He received Nobel Prize in Chemistry 2010 for his work on cross couplings between carbon atoms, with the metal palladium as a catalyst.

Professor Eiji Yashima (Japan). He is a leading scientist in the field of design and synthesis of helical molecules, supramolecules, and polymers with novel structures and functions.

 

Participação da SBPMat em eventos na China e integração com sociedades asiáticas.


iumrs-ica
Banner de um dos eventos na China que contou com presença da SBPMat.

A SBPMat (B-MRS), representada por seu presidente, Osvaldo Novais de Oliveira Junior, esteve presente em dois eventos realizados na China no mês de outubro, organizados por sociedades de pesquisa em Materiais da Ásia e também pela sociedade europeia de pesquisa em Materiais. Os eventos foram o 5th World Materials Summit on Advanced Materials for Sustainable Society Development e a IUMRS International Conference in Asia (IUMRS-ICA). O presidente da SBPMat viajou a convite da sociedade de pesquisa em Materiais da China (C-MRS) e da International Union of Materials Research Societies (IUMRS). Além de participar dos dois eventos, o professor fez parte do comitê assessor internacional do primeiro, e o professor Roberto Mendonça Faria, ex-presidente da SBPMat e segundo vice-presidente da IUMRS, fez parte dos comitês assessores internacionais de ambos os eventos.

“As sociedades de pesquisa em Materiais na Ásia têm despendido grandes esforços para integração entre si, e com sociedades de outros lugares do mundo”, comenta o presidente da SBPMat, destacando o trabalho das MRS da China, Japão, Coréia do Sul e Cingapura. “Já há vários anos uma relação muito próxima da SBPMat com essas sociedades, que estarão representadas no nosso próximo encontro em Gramado, de 10 a 14 de setembro de 2017”, completa.

O “summit” foi realizado em Rizhao, província de Shandong, de 18 a 20 de outubro, e foi organizado pelas sociedades de pesquisa em Materiais da China (C-MRS), Europa (E-MRS), Coreia (MRS-K) e Japão (MRS-J), além da Associação de Ciência e Tecnologia de Rizhao. Trata-se de um evento anual, no qual cientistas, políticos e empreendedores convidados pela organização se reúnem para apresentar e discutir o assunto dos materiais avançados para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável, com foco em temas específicos em cada edição. Em 2016, os temas escolhidos foram energias renováveis, principalmente para veículos automotores, materiais para construção visando à sustentabilidade e materiais para engenharia oceanográfica.

De acordo com o professor Novais de Oliveira Junior, as conclusões mais relevantes do evento se referiram à necessidade de ações internacionais colaborativas, ressaltando-se o caráter único da Ciência e Engenharia de Materiais para resolver problemas cruciais da humanidade, graças à abordagem integrada, multifacetada e de sinergia entre experimento, teoria e simulação computacional que essa disciplina pode oferecer. Especificamente sobre os temas da quinta edição do evento, o presidente da SBPMat destacou a importância do desenvolvimento de baterias mais duráveis, de maior capacidade e seguras, e a necessidade de investigações sobre o mar e sobre materiais de construção civil. “A propósito, no “summit” foram apresentados dados de custos de manutenção de obras civis de grande porte, como pontes, viadutos e estradas, que apontam para uma grande demanda de materiais avançados, não só para reduzir os custos, mas também garantir sustentabilidade”, comenta o presidente da SBPMat. “Houve também excelentes apresentações de especialistas europeus a respeito da energia que se pode extrair de fontes renováveis no mar”, acrescenta. Conforme o professor, um documento com as principais conclusões do evento está sendo preparado pelos participantes.

O segundo evento foi realizado em Qingdao, também na província de Shandong, a cerca de 150 km de Rizhao, de 20 a 24 de outubro, com organização da C-MRS e da sociedade de pesquisa em Materiais de Taiwan (MRS-T). Consistiu, basicamente, de 4 palestras plenárias e 27 simpósios sobre materiais para energia e meio ambiente, materiais avançados estruturais e funcionais, materiais biológicos, e simulação, modelagem e caracterização de materiais.

Convite da SBPMat para seguir a IUMRS no Twitter.


Enquanto membro (“adhering body”) da União Internacional de Sociedades de Pesquisa em Materiais (IUMRS), a SBPMat convida sua comunidade a seguir a IUMRS no Twitter, e assim ficar a par de novidades do campo dos Materiais, de relevância e origem global.

Siga IUMRS no Twitter: http://www.twitter.com/Materials_IUMRS.

Gente da nossa comunidade: entrevista com o pesquisador Roberto Mendonça Faria.


O entrevistado desta edição do Boletim da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat) é o professor Roberto Mendonça Faria, que acaba de entregar a presidência da SBPMat depois de 4 anos de mandato (mas promete permanecer ativo na sociedade).

Roberto Mendonça Faria nasceu em Adamantina, uma pequena cidade localizada no oeste do estado de São Paulo, em maio de 1952. No início dos estudos secundários, já orientado para as Exatas e estimulado por um bom professor de Física, ele começou a olhar a ciência como possível profissão. Em 1976, Faria concluía o bacharelado em Física na Universidade de São Paulo (USP).

No mesmo ano, ainda apaixonado por essa área na qual a humanidade estava dando grandes passos no caminho do conhecimento, Faria iniciou sua carreira acadêmica. Começou a lecionar em cursos de graduação da USP e entrou no curso de mestrado em Física dessa universidade. Ali, orientado pelo professor Bernhard Gross, pioneiro da pesquisa em Materiais no Brasil, aprendeu os pilares da atividade científica e desenvolveu um fascínio por desvendar mistérios dos materiais (no caso a condutividade induzida por radiação no polímero conhecido como Teflon). Logo após a obtenção do diploma de mestre, em 1980, começou o curso de doutorado em Física da USP, mais uma vez contando com o professor Gross como orientador. Em 1984, defendeu sua tese sobre absorção dielétrica e condutividade induzida por radiação no polímero PVDF.

Em 1985 começou a dar aulas em cursos de pós-graduação da USP. Entre 1987 e 1989, permaneceu na França em estágio de pós-doutorado na Université Montpellier 2. Em 1990, obteve o título de livre-docente pela USP, em concurso público, após defender uma tese sobre transições de fase em copolímeros ferroelétricos. Em 1999, tornou-se professor titular do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, onde ocupou diversos cargos de gestão ao longo dos anos, como a chefia do departamento de Física e Ciência dos Materiais (1994-1996), a coordenação do programa de pós-graduação em Física (1997-1998) e a direção geral do IFSC (2002 – 2006).

Roberto Faria também foi coordenador de dois projetos de grande porte em nível nacional. O primeiro foi o Instituto Multidisciplinar de Materiais Poliméricos do Milênio, um dos 17 projetos selecionados dentro do Programa Institutos do Milênio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Esse instituto reuniu cerca de 140 pesquisadores de 17 instituições das cinco regiões do país e vigorou entre 2002 e 2008. O segundo projeto deu continuidade a um dos focos de pesquisa do primeiro, o estudo dos polímeros eletrônicos e suas aplicações. Iniciado em 2009, o Instituto Nacional de Eletrônica Orgânica foi aprovado e estabelecido no contexto do programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) do MCT.

Indo além das fronteiras da sua área de atuação científica, Faria foi coordenador, entre 2010 e 2014, do polo de São Carlos do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, órgão destinado à pesquisa e discussão abrangente e interdisciplinar de questões fundamentais da ciência e da cultura. Além disso, no contexto de seu interesse em contribuir com o desenvolvimento econômico do país por meio da pesquisa, coordenou a realização do livro “Ciência, Tecnologia e Inovação para um Brasil competitivo”, publicado em 2012.

Nos últimos anos, Faria tem tido ativa participação em entidades científicas internacionais da área de Materiais. Em 2014, foi um dos coordenadores gerais do evento “Spring Meeting of the European Material Research Society – 2014“, realizado na cidade francesa de Lille. Em 2015, foi eleito segundo vice-presidente da International Union of Materials Research Societies(IUMRS).

Faria é membro da Academia de Ciência do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências, e pertence ao conselho editorial da revista “Materials Science – Poland”. Em 40 anos de pesquisa científica em materiais poliméricos, particularmente aqueles com atividade eletrônica e suas aplicações em dispositivos, o professor Faria produziu cerca de 180 artigos publicados em periódicos indexados, contando com cerca de 2.000 citações, e orientou 47 dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Segue uma entrevista com o pesquisador.

Boletim da SBPMat: – Conte-nos o que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar na área de Materiais.

Roberto Mendonça Faria: – Antes do de cursar o Científico, atual Ensino Médio, imaginava seguir a área das Exatas (como na época eram chamadas as Engenharias, a Física, a Química, a Matemática, etc.), porém não tinha nenhuma pretensão de fazer uma carreira científica, muito menos de ser um cientista. Contudo, já no primeiro ano do Científico comecei a mudar de ideia, estimulado por um excelente professor de Física, Roberto Stark. Formei-me em Física e logo tive a sorte de ter sido guiado por dois grandes mestres: o professor Bernhard Gross e o professor Guilherme Fontes Leal Ferreira. Como todo recém-formado em física da minha época, eu era apaixonado pelos extraordinários avanços experimentais e teóricos da física do século XX. Porém, meu primeiro trabalho de investigação foi sobre um tema aparentemente modesto: a interação da radiação ionizante com filmes finos de polímeros isolantes. Sob a orientação do professor Gross aprendi definitivamente como abordar um problema científico e também a manejar o rigor metodológico necessário para desvendar os efeitos e fenômenos que surgiam dos experimentos realizados. Esses primeiros anos de pesquisa foram de crucial importância para minha carreira. Nunca mais perdi o fascínio em desvendar as propriedades e os enigmas da matéria condensada, e fico feliz porque a Ciência e a Engenharia dos Materiais é de muita importância para o desenvolvimento do Brasil.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais?

Roberto Mendonça Faria: – Há diferentes maneiras de se medir as contribuições ao avanço do conhecimento científico e tecnológico. A visão mais objetiva e mais seguida internacionalmente é a bibliométrica conduzida pelo Journal of Citation Reports (JCR) da Thomson Reuters. Essa métrica tem muitos méritos, mas é exageradamente numerológica. Outro fato que pesa nas avaliações científicas vem do pragmatismo do mundo atual. Hoje exige-se que os trabalhos científicos estejam voltados a aplicações específicas. Nesse contexto, as pesquisas que envolvem estudos mais fundamentais tendem a perder a visibilidade que merecem. Ou seja, trabalhos científicos de grande valor muitas vezes são pouco citados. Uma análise da minha produção a partir da JCR pode levar à conclusão de que minhas contribuições mais relevantes estão ligadas a aplicações, mas eu particularmente acho que as minhas maiores contribuições estão mais relacionadas a trabalhos fundamentais nas áreas de transição de fase de polímeros ferroelétricos e de mecanismos de transporte elétricos em polímeros eletrônicos.

Uma das áreas interessantes que tenho trabalhado nos últimos anos é a de células solares orgânicas. Junto com meu grupo de pesquisa, creio que demos uma contribuição significativa à compreensão de fenômenos envolvendo o transporte de portadores elétricos no interior da célula. Publicamos dois trabalhos de 2013 para cá nos quais desenvolvemos uma equação analítica que governa a curva de corrente elétrica em função da voltagem de uma célula solar quando sob iluminação. Essa equação analítica vale muito bem em casos especiais, e explicou muitos dos efeitos optoeletrônicos dos dispositivos que construímos e medimos em nossos laboratórios. Um dos trabalhos foi publicado na revista Applied Physics Letters, em 2013, e o outro na Solar Energy Materials and Solar Cells, em 2015.

Por outro lado, sempre me dediquei a montar laboratórios de pesquisa e a formar recursos humanos. Venho também contribuindo com vários programas de pós-graduação, direta e indiretamente, e tenho me dedicado há mais de vinte anos ao fortalecimento da área de Eletrônica Orgânica no país, sobretudo na formação de uma rede de pesquisa nessa área: o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Eletrônica Orgânica. Procuro sempre que possível incentivar projetos de parcerias com a iniciativa privada e com institutos de pesquisa que visam projetos aplicados. Na área de políticas públicas creio que minha participação maior foi a de coordenar o documento da CAPES com a SBPC, denominado “Ciência, Tecnologia e Inovação para um Brasil Competitivo” que contribuiu à criação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII).

Boletim da SBPMat: – Você acaba de concluir seu mandato como presidente da SBPMat, função que exerceu durante 4 anos. Compartilhe com nossos leitores uma análise dos resultados conseguidos pelas diretorias que você presidiu.

Roberto Mendonça Faria: – A SBPMat é uma sociedade relativamente nova, mas tem uma missão importante a realizar em prol do desenvolvimento do país. O Brasil dispõe de uma riqueza extraordinária que a ele é oferecida pela natureza. Porém, o país pouco se aproveita dessa riqueza porque coloca pouco conhecimento sobre seus recursos naturais. Houve uma revolução na agricultura depois que o país resolveu colocar conhecimento sobre essa dádiva que a natureza lhe ofereceu. Hoje o agronegócio é um dos pilares, talvez o mais forte, da nossa economia. Temos que fazer o mesmo com as matérias-primas que abundam em nosso território. A publicação “Science Impact – A special report on materials science in Brazil”, em parceria com o Institute of Physics (IOP) , foi um dos projetos que deu certo e que me gratificou muito. Esse tipo de iniciativa ajuda a criar consciência de que o Brasil tem vocação natural para ser líder em vários segmentos relacionados a Materiais, e gerar muito mais riqueza do que gera atualmente.

Outra valiosa contribuição que as duas gestões anteriores da SBPMat deram à Ciência e Engenharia de Materiais no Brasil foi a consolidação e internacionalização definitiva do encontro anual, que sempre é realizado no final de setembro.

Não posso deixar de destacar que a criação do Boletim Eletrônico bilíngue foi uma realização que deu certo, principalmente pela competência com que vem sendo produzido.

Boletim da SBPMat: – Você acaba de assumir, por dois anos, a segunda vice-presidência da IUMRS. Comente seus planos, expectativas…

Roberto Mendonça Faria: – Estou iniciando essa atividade. Meus planos são, em primeiro lugar, inserir cada vez mais a Ciência dos Materiais brasileira no cenário internacional. Ao mesmo tempo, pretendo usar o apoio da IUMRS para estimular a pesquisa de materiais em outros países da América Latina. O Brasil e a América Latina têm muitos problemas que são oriundos de suas economias ainda deficientes. Tenho convicção de que pesquisas em áreas de materiais são instrumentos valiosos para melhorar as condições de vida dessas populações. Hoje, como membro do Conselho da SBPMat, quero, com o auxílio da IUMRS, levar essa discussão não só no Brasil, mas em vários países da América Latina.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para os leitores que estão iniciando suas carreiras científicas.

Roberto Mendonça Faria: Deixei para registrar aqui que uma das realizações (ainda em andamento) que traz orgulho à nossa gestão foi a criação do programa University Chapters . Vou pedir ao Conselho que me permita trabalhar em conjunto com o professor Rodrigo F. Bianchi dentro desse programa. Não tenho dúvidas de que quanto mais pesquisadores formarmos, mais o Brasil ganhará com isso.

Acredito que o trabalho junto aos jovens que estão iniciando a atividade científica é um dos mais valiosos para um pesquisador sênior. Temos o dever de mostrar aos jovens o quanto é importante para o país o trabalho de “fabricar conhecimento”, sobretudo nas áreas científicas e tecnológicas. Não há ainda um só exemplo de país que tenha erradicado a pobreza sem que tenha desenvolvido uma educação forte e uma ciência e tecnologia competitiva. Portanto, fica aos jovens a mensagem de acreditarem no seu trabalho e de procurar sempre realizá-lo da forma mais competente possível.